Que horas ela volta?

Filmes que criticam e fazem piada com a classe média sempre terão a minha admiração. Existe coisa mais chata do que ser médio? Nem rico, nem pobre… médio! Me recuso a dizer que ou mediano, medíocre, prefiro dizer que por enquanto estou pobre!

Que horas ela Volta (2015)aborda um tema que já rendeu muito assunto nas telonas, mas que neste caso específico consegue mostrar de forma divertida e ao mesmo tempo comovente  a relação de patrões e empregadas domésticas.

Val é uma empregada interpretada por Regina Casé (ótima no papel) que trabalha há anos na casa de uma típica e chata família do bairro do Morumbi em São Paulo. Dona Bárbara, a patroa, trabalha de sei lá o quê, mas dita tendências ( provavelmente é uma blogueira de moda ou coisa assim), Seu José Carlos não trabalha de nada e mesmo assim é vive bem com a herança do pai e passa o dia pintando quadros que ninguém vê e por último o filho Fabinho, criado pela empregada da casa por quem desenvolve um certo afeto. Aliás, o filme começa com Fabinho ainda pequeno perguntando para Val a que horas a que horas a mãe dela volta, frase que dá título ao filme.

Val é quase um objeto dentro da casa, já se misturou a paisagem. Fora suas funções habituais de empregada da casa, acrescentam-se as funções de despertador (acordar o patrão que não trabalha ás onze da manhã), ser babá do cachorro da família ( que também é folgado e tem mais regalias que ela) e ser “mãe” de Fabinho, o inseguro filho do casal.

E assim ela vai levando sua vidinha no minúsculo e abafado quartinho dos fundos da casa até que sua filha Jéssica ( que não vê desde criança) decide passar uns dias com a mãe em São Paulo enquanto presta o vestibular.

Jéssica é o oposto da mãe. Topetuda, questionadora e segura de si, ela consegue em horas o que a mãe não conseguiu em anos trabalhando na casa. Dormir no confortável quarto de hóspedes, sentar a mesa com os patrões, tomar banho de piscina e ser servida por Dona Bárbara que com uma simpatia mais rasa que a de um pires lhe prepara um suco no café da manhã.

A menina faz uma reviravolta na vida de Val. Em uma das cenas, ela é jogada na piscina e se diverte enquanto a mãe desesperada grita para que ela saia dali. No outro dia a piscina é esvaziada a mando de Bárbara que alega ter visto um rato. Não preciso dizer quem é o rato para a Dona Bárbara.

O maior mérito do filme para mim é não tentar dar uma lição explícita de moral, não tentando assim redimir ou exaltar ninguém. A vingança da filha de Val vem a galope ao conseguir passar  na primeira etapa do concorrido vestibular de arquitetura. Aliás, no início do filme, o donos da casa fazem cara de pena ao saber que Jéssica vai tentar vaga na USP. Quando ela consegue a proeza, Val comemora os fantásticos 66 pontos alcançados pela filha na mesma hora em que Fabinho não é aprovado.

Em uma das cenas mais legais, Val finalmente entra na piscina, ainda que quase vazia,ainda que sussurrando ao telefone para ninguém ouvir em um ato de ousadia para a dedicada empregada. Val representa uma parcela da população que é quase invisível, que se acostumou com a segregação (o quartinho dos fundos,a piscina dos patrões, “o sorvete de Fabinho”) que tem que deixar seus filhos aos cuidados de terceiros para cuidar dos filhos dos outros. Val é quase da família, só que da porta da cozinha para lá, é claro.

Minha admiração a todas as “Val” do Brasil e a todos aqueles que quiserem ironizar a classe média brasileira que mesmo com a geladeira ao lado, a centímetros de distância pede “educadamente”:” Val, me traz um copo de água”, “pega o sorvete por favor amor”, “Val, pode tirar os pratos”, “Val”, Val, Val”…

 Ps: O filme também menciona ( de forma irônica) marcas bem populares como Casas Bahia (onde ingenuamente Val compra um presente para a patroa) e Mucilon (“O menino só toma Mucilon, tem que comer fruta”, diz ela a uma amiga)

 

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Sobre Uma Jornalista

Formada em Jornalismo pela PUC Minas em 2011.

Publicado em janeiro 12, 2016, em Uncategorized e marcado como , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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